Vergonha da mesóclise

Mais várias do João Ubaldo. “O avião, ele teve uma pane elétrica”, “eu vou ir a São Paulo domingo”, “este sistema não suporta senhas alfanuméricas”… Não deixe de ler o artigo publicado no Estadão: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090607/not_imp383502,0.php.

Que termina assim:

“Ah, dirá talvez a maioria de vocês, são de fato caturrices, rabugices – como já as qualifiquei aqui mesmo. Até admito, mas existe o direito de sentir saudades de uma língua que dispõe (ou dispunha) de recursos expressivos, elegantes e precisos e que os vai perdendo tão esbanjadamente, a ponto de a gente ter vergonha deles. Da mesóclise, coitada, nem se fala. Seu raríssimo emprego é obrigatoriamente seguido de uma explicação ou piada, porque, se for a sério, é considerado pedante ou ridículo, talvez porque quem pensa assim crê que usá-la envolve dificuldades insuperáveis. Da mesma forma, certas combinações, como “mo”, na frase “depois que eu vi o livro, ela mo deu”. Só se diz “ela me deu”, o que pode até gerar interpretações marotas em relação à senhora referida pelo “ela”. Mas vamos ser otimistas e torcer para que a situação seja apenas passageira e que nossa língua volte a ser tratada com o afeto respeitoso que outrora despertava. A esperança, ela é a última que morre.”

Sempre os verbos…

bocafechadaSe eu quiser reaver alguma coisa na primeira pessoa do singular do presente do indicativo:  eu “reavo”, “eu reavejo”, “eu reavenho”?

E se for com o verbo adequar: “eu me adequo”?

Com abolir, “eu abulo”?  Com falir,  “eu falo”?

Não, não!…  São todos verbos defectivos, assim chamados por não apresentarem determinadas formas.

E como falamos então?

Para substituir a primeira pessoa do singular do presente do indicativo de abolir podemos usar, por exemplo, ‘eu cancelo’, ‘eu revogo’.

Também podemos dizer : ‘eu vou reaver’,  ou ‘eu estou falindo’

Os verbos adequar, falir e reaver só possuem a primeira e a segunda pessoa do plural.

Ah! E como seria: ‘eu explodo’ ou ‘eu expludo’?

‘Eu vou explodir’. Você acertou. É também um defectivo.

Portanto, prestemos atenção a estes pequenos defeitos que podem colocar tudo a perder.

Palavras que ferem, palavras que salvam

Roberto Pompeu de Toledo, para a Veja

Pompeu de Toledo

O artigo saiu na Revista Veja em 25/3/09 e é do Roberto Pompeu de Toledo. Ótimo. O que sempre quisemos comentar. Tem coisa mais irritante que… bem, leia aí embaixo! Publicamos alguns trechos e disponibilizamos a íntegra em um link ao final. Caso não tenha gostado, você pode ‘estar deixando’ seu comentário. ‘Vamos estar entrando’ em contato para saber se ‘podemos ajudar’!? ‘É só aguardar’.

Posso ajudar?” Eis duas palavrinhas que nos soam mais que familiares. Entra-se numa loja e lá vem: “Posso ajudar?”. Está desencadeado um processo durante o qual não mais conseguiremos nos livrar da prestimosa oferta. Ao entrar numa loja, o ser humano necessita de um tempo de contemplação. Precisa se acostumar ao novo ambiente, testar a nova luminosidade, respirar com calma o novo ar. Sobretudo, necessita de solidão para, por meio de um diálogo consigo mesmo, distinguir entre os objetos expostos aquele que mais de perto fala à sua necessidade, ao seu gosto ou ao seu desejo. A turma do “posso ajudar” não deixa. Mesmo que se diga “Não, obrigado; primeiro quero examinar o que há na loja”, ela só aparentemente entregará os pontos. Ficará por perto, olhando de esguelha, como policial desconfiado. (…)

em_que_posso_ajudarAinda se fossem outras as palavrinhas – “Posso servi-lo? Precisa de alguma informação?” Não; o escolhido é o “posso ajudar”, traduzido direto do jargão dos atendentes americanos (“May I help you?”). A má tradução das expressões comerciais americanas já cometeu uma devastação no idioma ao propagar o doentio surto de gerúndios (“Vou estar providenciando”, “Posso estar examinando”) que, do telemarketing, contaminou outros setores da linguagem corrente. O “posso ajudar” é caso parecido. Tal qual soa em português, mais merecia respostas como: “Pode, sim. Meu carro está com o pneu furado. Você pode trocá-lo?”. Ou: “Está quase na hora de buscar meu filho na escola. Você faz isso por mim? Assim me dedico às compras com mais sossego”.

Pode haver algo mais irritante do que o “posso ajudar”? Pode. É o “é só aguardar”. Este é próprio dos lugares em que se é obrigado a esperar para ser atendido – o banco, o INSS, o hospital, o cartório, o Detran, a delegacia da Polícia Federal em que se vai buscar o passaporte. Ou bem há uma mocinha distribuindo senhas ou um mocinho organizando a fila. Chega-se, a mocinha dá a senha, o mocinho aponta o lugar na fila, e tanto a mocinha quanto o mocinho dirão em seguida: “Agora é só aguardar”. (…) Um traço característico da turma do “é só aguardar” é que ela nunca cometerá a descortesia de dizer “é só esperar”. Seus chefes lhes ensinaram que é mais delicado, menos penoso, “aguardar” do que “esperar”. É um pouco como quando se diz que fulano “faleceu”, em vez de dizer que “morreu”. A crença geral é que quem falece morre menos do que quem morre. No mínimo, morre de modo menos drástico e acachapante.

Na íntegra: http://veja.abril.com.br/250309/pompeu.shtml

“Inclusive, enquanto professor…”

obamaraulEntre as inadequações utilizadas pelos falantes  encontramos as palavras ‘inclusive’ e ‘enquanto’.

‘Inclusive’ é um advérbio que, segundo o dicionário Houaiss, pode ser usado de duas formas:

1    de modo inclusivo; sem exclusão
Ex.: estudaremos até o capítulo X, i.
2    até, até mesmo
Ex.: é uma situação delicada, i. perigosa

Portanto, se você já ouviu alguém falar algo como:  _”Vou começar a trabalhar amanhã. Inclusive falei com minha irmã..” , a palavra está empregada de forma errada, pois nenhum termo foi incluído na oração.

Já com ‘enquanto’, há controvérsias.

A maioria das gramáticas classifica a palavra só como conjunção temporal, e não conjunção conformativa substitutiva de ‘como’.

Mas agora o que se ouve é ‘enquanto professor, enquanto médico etc.’ , o que para mim parece totalmente deslocado.

‘Enquanto’ sempre foi usado para transmitir idéia de tempo, mas vai ver que as pessoas acham sofisticado falar assim.

Você, caro leitor, pense bem sobre a questão e opte pelo que achar mais lógico, conveniente ou correto.

‘Como’ falante, deixarei que o tempo responda.