Menas gente anda meia confusa

Já ouvi muita gente esclarecida, formada e graduada, rir de quem fala menas. Talvez os desavisados não saibam que cometem um erro de igual proporção quando dizem: “hoje ela está meia confusa…”

Deveríamos saber que os advérbios pertencem à categoria gramatical  dos invariáveis. Mas, hoje em dia, são poucos o que se lembram do que seja um advérbio.

Como tudo o que se aprendeu na escola para fazer a prova e se ver livre dela, este é um dos pontos obscuros aprisionados na memória decoreba.

Esta doença, altamente contagiosa, tem nome: caso de concordância por atração.

Meio quer dizer pela metade, um pouco. Mas como está próximo de uma palavra no feminino, há esta incrível atração que faz com que todos pensem que uma deve concordar com a outra.

Já fez parte do português arcaico. Até nosso mestre maior, Machado de Assis, escreveu em ‘Quincas Borba’ : “a cabeça de Rubião meia inclinada”.

Mas não nos deixemos contaminar.  Sejamos coerentes.

Menos gente padecerá do mal de andar meio confuso quando se lembrar de que sempre advérbios são invariáveis.

O caderninho rabugento

Divulgação

Divulgação

Quem não lê João Ubaldo Ribeiro, não sabe o que está perdendo. Em sua última coluna, o escritor trata com muito humor as mudanças do português falado, que, como todas as outras, é uma língua em constante transformação.

Sem nenhuma pretensão de que seja verdade, mas parece que ele escreveu a coluna sob nossa encomenda para o blog! Cada exemplo mais divertido que o outro. 

O texto completo está disponível aqui.

E aí vão dois trechos que nos pareceram imperdíveis:

Como se soubesse em que estou me ocupando agora e quisesse me provocar, a repórter do noticiário de televisão a que no momento assisto diz que não sei o que lá acontece “peluma razão muito simples” . Essa — como direi? — preposição não foi criada por ela, porque já a ouvi antes e a ouço com cada vez maior frequência. Dizem que os neologismos surgem espontaneamente, assim que há necessidade. Devemos, por conseguinte, ter necessidade, pelum desses volteios do destino, de usar uma preposição variável, haverá de ser mais um passo para a nossa crescente integração no concerto das nações desenvolvidas. Pelum, peluma, peluns, pelumas — estou começando até a gostar, pode ser que dê mais expressividade à língua. (…)

Creio também que já chegou a hora de preparar o necrológio de “cujo”, esse desconhecido. Há alguns marginais que ainda recorrem a ele, mas estão cada vez mais minoritários e acredito que dentro em breve quem usá-lo vai ser vaiado ou denunciado como elitista ou perguntado como vão as coisas na Ucrânia. Já está ficando estranho alguém, na conversa comum, dizer “a moça cujo pai eu vi ontem”. O certo vai acabar sendo “a moça que eu vi o pai ontem”. Tenho certeza de que isso se aproxima do léxico e da sintaxe dos chimpanzés, mas não disponho de provas e não quero melindrar os chimpanzés.

Falar mancando

crutchHá quem manque quando fala.

_”Como assim?” _ diria alguém já potencialmente manco.

Quando finalizamos uma frase com “né?”, “tá?”, “entendeu?”, “enfim…”,  mancamos.

Quando no meio da frase colocamos “ou seja”, “meio assim…” ou “de forma que..”, mancamos.

O que é o indefectível “tipo”,  usado por adolescentes ou nem tanto, se não uma bela mancada?

Minha teoria é que este artifício é utilizado quando nos perdemos no pensamento e damos uma paradinha para achar as palavras adequadas que perdemos pelo caminho.

Difícil é achar quem fale sem usar muletas.

Alexandre Garcia, comentarista político da Rádio Eldorado, não precisa de escoras.

É fluente em português. Expõe seu pensamento com clareza, bom vocabulário, nada complicado ou empolado.

Observe-se falando. Tem mancado?

Quem pensa bem não manquitola.

Com certeza

“Com certeza” vivia muito bem com seus pares no imenso mundo lexical. Era muito próxima de “Certamente”, mais refinada e assertiva. Mas, de repente, “Com certeza” caiu na boca do povo. Passou a ser substituída por “É”, “Sim”, “Não” e vários “Verbos Flexionados”:

_ Você  gostou do fime?

_ Com certeza.

_ Você fez um belo  gol.  Quais são seus planos ?

_Com certeza… Meu sonho é a seleção.

“Com certeza” começou a perder a identidade.

Era empregada em várias situações que deixava perplexos todos os que a conheciam de outros tempos.

Agora tudo estava perdido. Encontrava-se na mesma situação outrora ocupada por seu amigo “A nível de”.

Talvez seja uma fase.

Mas que está demorando a passar, com certeza está.